Postagem em destaque

[Indicação] Melhores livros de fantasia publicados no brasil

Nos últimos meses tenho lido apenas fantasia, tive muitas e excelentes leituras. Resolvi fazer,  junto com um amigo, um TOP 10 dos melhores...

quinta-feira, 31 de março de 2016

[Resenha] Os Magos - Lev Grossman





Livro: Os Magos
Série: Os Magos
Autor: Lev Grossman
Ano: 2010
Editora: Amarilys
Páginas: 456
Resenha por: Julio Heber
Compre: Saraiva

Sinopse: Quentin Coldwater é um gênio precoce às vésperas de entrar na faculdade. Como a maioria das pessoas, Quentin acreditava que a magia não era algo real. Acreditava. Tudo muda quando ele é surpreendentemente admitido em uma universidade - muito antiga, muito secreta, muito exclusiva - de estudos mágicos, ao norte de Nova York. Após se esgueirar por um terreno baldio do Brooklyn na tarde de inverno em que deveria ter feito sua entrevista para entrar em Princeton, Quentin se vê, em pleno verão, no idílico campus da misteriosa Brakebills. Ali - não antes de um difícil e cansativo exame de admissão - ele dá início a uma extensa e rigorosa iniciação ao universo acadêmico da feitiçaria moderna; ao mesmo tempo, descobre também os princípios boêmios da vida universitária - amizades, amores, sexo e álcool..
Esta é a história de Quentin Coldwater, um desiludido e inteligente estudante do ensino médio que tinha como certa a sua aprovação para ingressar nas melhores universidades dos EUA. Junto com um casal de amigos (com quem tem uma estranha relação de amor e ódio) vai fazer uma entrevista para tentar ingressar na universidade, na casa de um dos examinadores. Chegando lá encontra o entrevistador morto, de um provável derrame cerebral. Antes de ir embora, uma misteriosa paramédica entrega para Quentin um envelope com seu nome escrito, supostamente deixado pelo entrevistador.

Ao abrir o envelope encontra um manuscrito, intitulado de "Os magos", continuação do último livro da série, que Quentin é obcecado, "Fillory & além", que conta as aventuras dos irmãos Chatwin no mundo mágico de Fillory, ao virar uma das páginas, um pedaço de papel dobrado cai no chão e voa. Quentin sai em perseguição ao papel que cai em um jardim. De repente, se dá conta que está em um lugar diferente da cidade, com extensos gramados e um enorme casarão, onde encontra Elliot, um estudante da faculdade de Mágica Brakebills. Quentin é levado até o reitor, que revela que ele está ali para fazer um teste para entrar na faculdade.

Para sua surpresa, ele consegue se aprovar no teste, sendo aceito junto com ele um punk chamado Penny e uma menina tímida chamada Alice. Quentin e Alice são integrados ao grupo dos Físicos, um grupo de magos especialistas em magia física, onde conhecem o amargurado Eliot, o otimista Josh e a destrutiva Janet, que acabam por se tornar amigos e passar a maior parte do tempo estudando magia e consumindo álcool.

Depois de muitas aventuras na universidade mágica, Quentin e seus amigos se graduam e voltam para o “mundo real”, onde, sentindo muita saudade de Brakebills, descobrem que a vida ali não tinha muita graça, e acabam passando os dias fazendo festas e orgias regadas a muito álcool. Um belo dia, Penny reaparece com um botão que dá acesso ao mundo de Fillory e convence a todos a empreender uma viajem a esse mundo, mas logo descobrirão que Fillory não é o lindo conto de fadas que pintavam os livros.

Opinião

Já fazia muito tempo que eu queria ler “Os Magos”, mas como a minha pilha de livros não lidos estava enorme, fui deixando para depois. Por fim, comecei e terminei a leitura rapidamente (li em 3 dias). O livro já chama atenção pela capa, que tem grafado o seguinte comentário do George R. R. Martin:
Os Magos está para Harry Potter como uma dose de uísque puro malte está para uma xícara de chá.
Bom, com um comentário desse, de um escritor do naipe do tio Martin, pensei, esse livro vai ser mítico! Mas não foi bem isso que aconteceu. O livro é claramente, uma mistura de Harry Potter com Nárnia, inclusive tem várias referências no decorrer da história, o que poderia ficar legal se bem executado o enredo. No entanto, o clima pessimista demais e a libertinagem excessiva dos personagens contribuíram para eu achar o livro apenas bom e não Ótimo.

Comecei a ler o segundo volume da série, e digo que a história melhorou bastante, logo mais falarei dele, aguardem!

                                                                            3,0/5,0


quinta-feira, 24 de março de 2016

[Resenha] O menino do Pijama Listrado - John Boyne

Nome: O menino do Pijama Listrado
Autor: John Boyne
Páginas: 186
Editora: Seguinte
Resenha por: Ana Carolina


Sinopse: 
Bruno tem nove anos e não sabe nada sobre o Holocausto e a Solução Final contra os judeus. Também não faz idéia que seu país está em guerra com boa parte da Europa, e muito menos que sua família está envolvida no conflito. Na verdade, Bruno sabe apenas que foi obrigado a abandonar a espaçosa casa em que vivia em Berlim e a mudar-se para uma região desolada, onde ele não tem ninguém para brincar nem nada para fazer. Da janela do quarto, Bruno pode ver uma cerca, e para além dela centenas de pessoas de pijama, que sempre o deixam com frio na barriga. Em uma de suas andanças Bruno conhece Shmuel, um garoto do outro lado da cerca que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Conforme a amizade dos dois se intensifica, Bruno vai aos poucos tentando elucidar o mistério que ronda as atividades de seu pai. O menino do pijama listrado é uma fábula sobre amizade em tempos de guerra, e sobre o que acontece quando a inocência é colocada diante de um monstro terrível e inimaginável. "Um livro maravilhoso." - The Guardian "Intenso e perturbador [...] pode-se tornar uma introdução tão memorável ao tema como O diário de Anne Frank foi em sua época." - USA Today "Um livro tão simples e tão bem escrito que beira a perfeição." - The Irish Independent

         O livro conta a história de um garoto de nove anos chamado Bruno, que vive com seus pai e irmã na cidade de Berlim. Um dia, inesperadamente, Bruno é informado de que sua família irá se mudar para uma outra casa longe da cidade por causa do emprego de seu pai, que é general do exército nazista (isso só é revelado no decorrer do livro). O garoto, obviamente, fica inconformado pois se verá sem seus três melhores amigos, sua casa enorme, perfeita para exploração e das encantadoras peculiaridades de sua cidade, como os cafés, as ruas cheias dos sábados a tarde e o cheiro maravilhoso das bancas de verduras.
         Poucos dias depois, a família muda-se para Haja Vista, uma espécie de "casa de campo" isolada numa parte isolada da região. Imediatamente Bruno odeia a nova casa, ela não era grande como a anterior e aparentemente ali não haveria ninguém para que pudesse brincar. Sua irmã Gretel, de 12 anos, não era uma opção pois ele não a suportava e a considerava muitas vezes como um "caso perdido".
          Logo primeiro dia de sua chegada, ao olhar pela cerca viu uma estranha imagem: ao longe, depois do jardim, uma alta cerca erguia-se presa firmemente ao chão por postes enormes. Atrás dessa cerca havia um grande campo com várias casas espalhas e muitas pessoas, crianças, homens e velhos, sendo que uma curiosa e estranha característica em comum era o fato de todos usarem pijamas listrados. Questionados a respeito das pessoas, os pais de Bruno deram-lhe a ordem para não se envolver com elas.
          Um dia, cansado de ficar sozinho e de não ter nada para fazer, o menino finalmente decide explorar o jardim dos fundos e a cerca (os pais haviam proibido-lhe) e ele anda por algum tempo até finalmente chegar a cerca e lá conhece um garoto chamado Shmuel, que curiosamente nasceu no mesmo dia que ele. Ali se constrói uma amizade linda, onde todos os dias as crianças se encontravam, Bruno levando diariamente comida para seu amigo. A cerca os separava e ainda assim estavam unidos pelos laços do coração.
        Lendo esse livro, não pude deixar de me comover com a pureza do ponto de vista de Bruno. A inocência de um mundo ruim vista pelos olhos de uma criança nos dá a vontade de querer voltar no tempo e por mais uma vez ser Bruno ou Shmuel. Bruno, que no início é uma criança mimada (criado para ser assim) aos poucos vê sua realidade mudando e descobrindo o verdadeiro sentido da palavra amizade e Shmuel, com toda realidade dura que tem de suportar, aos poucos vê uma luz no fim do túnel e percebe que nem todas as pessoas do mundo são más.
        Outra frase marcante do livro que nos leva a uma reflexão sobre a realidade nazista "e quem decidia quem usava os pijamas e quem usava os uniformes?". Quem decidia? Aquelas eram duas crianças exatamente iguais, poderiam ser irmãos gêmeos, colegas de sala, mas um estava do outro lado da cerca. Porque ele estava ali? O que havia feito Shmuel e todas essas pessoas de tão ruim?
         É um ótimo livro para quem está iniciando a leitura, pois muito provavelmente fará a pessoa chorar ou ao menos se emocionar. Não recomendaria para crianças pois o início é meio confuso e talvez uma criança não compreenda ou demore a compreender se não tiver consciência de quem foi Hitler e o que foi o Nazismo.


Nota: 3,0/5,0



Vídeo-resenha:


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

[Resenha] O Iluminado - Stephen King




Nome: O Iluminado
Autor: Stephen King
Editora: Objetiva
Páginas: 313
Resenha por: Ana Carolina


Sinopse: Danny Torrance não é um menino comum. É capaz de ouvir pensamentos e transportar-se no tempo. Danny é iluminado. Será uma maldição ou uma bênção? A resposta pode estar guardada na imponência assustadora do hotel Overlook. Em O iluminado, quando Jack Torrance consegue o emprego de zelador no velho hotel, todos os problemas da família parecem estar solucionados. Não mais o desemprego e as noites de bebedeiras. Não mais o sofrimento da esposa, Wendy. Tranquilidade e ar puro para o pequeno Danny livrar-se das convulsões que assustam a família. Só que o Overlook não é um hotel comum. O tempo esqueceu-se de enterrar velhos ódios e de cicatrizar antigas feridas, e espíritos malignos ainda residem nos corredores. O hotel é uma chaga aberta de ressentimento e desejo de vingança. É uma sentença de morte. E somente os poderes de Danny podem fazer frente à disseminação do mal.
          
"Retirem as máscaras!"
"E a máscara da morte rubra dominava tudo"
"REDRUM"

          Comecei com a literatura de terror com Stephen King, com alguns contos do livro do livro Tripulação de Esqueletos. Na época eu nem sabia que ele era o escritor, mas desde cedo me apaixonei pela sua maneira de narrar. Desde então já li outros livros, como Os olhos do Dragão e uma parte de Cujo. Quando eu ouvi falar que essa possivelmente seria a obra prima do autor, me interessei muito em ler logo, principalmente porque o gênero ficção e suspense me encanta.
             Esse livro, como diz a sinopse acima, conta a história da família Torrance, que está passando por diversos problemas, não só financeiros como também conjugais. Jack, o pai da família teve diversos problemas no passado com casos de violência familiar e posteriormente acabou se envolvendo com alcoolismo e acabou perdendo o emprego. Um acidente na estrada e um episódio em que quebra por "acidente" o braço do filho Danny, faz com que sua mulher Wendy, fique cada vez mais insatisfeita com o casamento e cogitando cada vez mais a hipótese do divórcio. Além disso, há mais um fato curioso na família e de certa forma perturbador para os Jack e Wendy - Danny, de 5 anos, é iluminado, uma pessoa extremamente sensitiva, capaz de ler pensamentos, conversar pela mente, prever o futuro e ver espíritos.
                 No início da história, a família terá de se mudar para o hotel Overlook para que Jack, como favor de seu amigo Al, trabalhe como zelador no período de inverno. Durante quase cinco meses, apenas os três residirão isolados pois as estradas ficarão cobertas pela neve. A família vê essa oferta como uma oportunidade para restabelecer os laços danificados, melhorar a condição financeira e estímulo para que Jack volte a escrever. No entanto, uma visão mostrada a Danny por seu amigo imaginário Tony o alerta, aquele hotel não é um bom lugar e eles não devem ir. Logo a família descobre o passado trágico que marca o hotel: Assassinatos, prostituição, máfia, traição e ódio. O hotel está marcado por sentimentos e energias ruins e parece desejar avidamente a família.
              Logo que comecei a ler o livro, pude perceber que se tratava de um terror psicológico, a proximidade do autor com os pensamentos dos personagens (eles vem tão subitamente que cortam a leitura) nos faz acompanhar o enredo passo a passo como tudo começa e se decorre. De certo modo que nos sentimos tensos automaticamente quando algo vai acontecer, você se sente no lugar do personagem. A loucura de Jack se desenvolve passo a passo e tudo é mostrado de perto pelo autor. Além disso, temos o Overlook, sua maldade não se consiste em matar e sim enlouquecer, prender, para que as almas e sentimentos vagem pelos corredores eternamente. A frase "esse lugar desumano cria monstros humanos", a vítima escolhida é sempre a psicologicamente instável, aquela com traumas não resolvidos, a que pode perder o controle aos poucos.
               A escrita é fluente, apesar de ser um livro denso. Muitas coisas acontecem, muitos detalhes que são importantes se passam o tempo todo, principalmente quando Jack encontra o álbum de recortes, onde está quase todo o passado do lugar em reportagens. Outro ponto positivo é a impossibilidade de definir um personagem principal, pois todos os personagens são acompanhados o tempo todo, o autor varia entre eles o tempo todo. O ponto de vista do Danny é o mais interessante. ele entende e ao mesmo tempo não entende; por ser uma criança precoce e ser apresentado inconscientemente à coisas que estão além da compreensão para alguém da sua idade como o divórcio, relações sexuais, assassinato e maldade, ele compreende alguns sentimentos e pensamentos das pessoas, mas não entende as causas e como elas levaram a tais reações.
                Recomendo muito esse livro para todos os que gostam do gênero, aliás, não só eles como para todo mundo, pois acho que todos deveriam ler pelo menos um livro do Stephen King na vida e se eu pudesse indicar, esse seria o escolhido. Mal posso esperar para comprar e ler os outros livros do autor, acho que ele ganhou mais uma fanática.

 
5,0/5,0


Vídeo-resenha:


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

[Resumo] Antologia Poética - Gregório de Matos - (PAES)


Antologia Poética



Biografia

Gregório de Matos

Foi tão tumultuada a vida do poeta baiano que um biógrafo chamou-a de “vida espantosa”.
Como filho de senhor de engenho, Gregório pôde estudar em Portugal,para onde se mudou aos 14 anos de idade. Lá passou 32 anos, prósperos e tranqüilos.
Retornou ao Brasil, em 1682, nomeado para funções na burocracia eclesiástica da Sé da Bahia. Durou pouco no cargo, do qual foi destituído em 1683. Iniciou-se, então, a última fase de sua vida. O casamento com Maria dos Povos, a quem dedicou belíssimos sonetos, não impediu a decadência, social e profissional, do Dr. Gregório. Ficou famoso em suas andanças e pândegas pelos engenhos do Recôncavo.
Mais famosas ainda eram suas sátiras. Talvez por causa delas, foi deportado para Angola, em 1694. Pôde retornar ao Brasil, no ano seguinte, mas para o Recife, onde morreu aos 59 anos de idade.
Gregório de Matos Guerra ficou conhecido na história da literatura como o Boca do Inferno, por causa de suas sátiras e de sua poesia. Mas sendo um autor barroco e, portanto surpreendente e contraditório, esse mesmo Boca do Inferno também disse coisas belíssimas sobre o amor, como nesse soneto que você acabou de ler.

Comentário

Podemos incluir o soneto de Gregório de Matos na tendência conceptista do Barroco, graças ao engenhoso desenvolvimento de uma única imagem, a da mariposa atraída pela chama que deverá matá-la. O sujeito lírico desdobra a comparação entre a sua situação e a da mariposa, explorando as semelhanças, para, na última estrofe, ponto culminante do soneto, estabelecer a grande diferença: seu sacrifício é mais terrível do que o dela, por que inútil. Nosso poeta baiano merece que lhe dediquemos uma atenção especial. Para muitos historiadores, ele é o iniciador da literatura brasileira. Mas é interessante observar ar que permaneceu inédito até meados do século XIX. Sua produção poética sobreviveu, até então, em livros manuscritos, colecionada por admiradores. As duas tentativas de publicação completa - por sinal, muito insatisfatórias - ocorreram já no nosso século XX: a edição da Academia Brasileira de Letras, em 6 volumes (1923-1933), e a edição de James Amado, em 7 volumes (1968).

Gregório recebeu influências tanto do Cultismo de Góngora quanto do Conceptismo de Quevedo. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra:
a. poesia sacra (temática religiosa)
b. lírica amorosa
c. poesia satírica
d. poesia burlesca

I. Poesia sacra
Como autor barroco, não poderia faltar a poesia, religiosa em sua obra. Essa temática abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemoração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral.

Texto

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa piedade me despido,
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido,
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Gloria tal, e prazer tão repentino
vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada
Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
Vocabulário
despido: despeço forma regular de despedir-se.
delinqüir: pecar, cometer delito.
sobejar: ser mais que suficiene.
cobrada: recobrada, recuperada
Esse soneto de contrição é um dos mais conhecidos poemas de Gregório e segue o modelo conceptista de Quevedo. Nas questões abaixo procuraremos acompanhar os meandros do raciocínio engenhoso de um pecador que advoga sua causa, procurando convencer a Deus de que merece o seu perdão.

II- Lírica amorosa

A lírica amorosa na obra de Gregório de Matos abrange um amplo leque temático. Às vezes é a mais pura idealização do amor:

“Quem a primeira vez chegou a ver-vos,
Nise, e logo se pôs a contemplar-vos,
Bem merece morrer por conversar-vos
E não poder viver sem merecer-vos”.
Outras, uma requintada exploração da psicologia amorosa, como, por exemplo, na expressão da timidez do amante, temeroso do desprezo da amada:
“Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno, e calo, tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento,
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto”.
Chega também, freqüentemente, a um realismo irônico, quase cínico, como nos seguintes versos em que busca definir o amor:
“Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palácios entra:
[.......................................]
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento,
é assunto dos poetas:
[.......................................]
Arre lá com tal amor!
isto é amor? é quimera,
que faz de um homem prudente
converter-se logo em besta”.

De acordo com Manuel Pereira Rebelo, seu primeiro biógrafo (início do século XVIII), o poeta teve uma paixão não correspondida pela filha de um senhor engenhoso, D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo organizou um ciclo dos poemas que seriam expressão desse caso amoroso. Entre eles estão alguns dos mais belos da obra de Gregório de Matos.
O soneto que você vai ler agora é o sétimo poema do ciclo “Ângela”, na edição de James Amado.

Texto

Anjo no nome, Angélica na cara.
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Vocabulário
florente: brilhante
por seu Deus: como seu Deus.
custódio: aquele que guarda, o anjo da guarda.
galharda: elegante, gentil
Observe que o nome da amada sugere as duas imagens em torno das quais se organiza toda a expressão poética.

III- Poesia satírica

O “Boca do Inferno” não perdoava ninguém: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos, padres, freiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enfim, eram objeto de sua “lira maldizente”.
O governador Câmara Coutinho, por exemplo, foi assim retratado:

“Nariz de embono
com tal sacada,
que entra na escada
duas horas primeiro
que seu dono.”

Contudo, o melhor de sua sátira não é esse tipo de zombaria, engraçada e maldosa, mas a crítica de cunho geral aos vícios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia:

“Senhora Dona Bahia,
nobre e opulenta cidade,
madrasta dos naturais,
e dos estrangeiros madre.”
A cidade é assim descrita num poema:
“Terra que não aparece
neste mapa universal
com outra; ou são ruins todas,
ou ela somente é má.”

Mas nem sempre o poeta é rancoroso com sua cidade. No famoso soneto “Triste Bahia”, já musicado por Caetano Veloso, Gregório identifica-se com ela, ao comparar a situação de decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das sátiras para tornar-se um quase lamento:

“Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.”
Depreende-se desse texto que as sátiras de Gregório de Matos esagradavam a muita gente. Por isso ele defende seu direito de escrevê-las.
Aos vícios
Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios e enganos.
[.......................................................]
De que pode servir, calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala?
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
[..........................................................]
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolente,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.

Vocabulário
canonizar: considerar santo, incluir no rol dos santos;
quem maior a tiver: quem tiver virtude maior;
chitom: silêncio (do francês “chut donc”)

IV- Poesia burlesca

É a poesia mais circunstancial de Gregório de Matos. De modo sempre galhofeiro, o poeta registra em versos sempre pequenos acontecimentos da vida cotidiana da cidade e dos engenhos. Segundo James amado, a poesia burlesca é a “crônica do viver baiano seiscentista”.
A maior parte foi escrita na última fase da vida do poeta, período de decadência pessoal e profisional. O doutor deixara de advogar e perambulava pelos engenhos do Recôncavo, levando sua viola de cabaça, freqüentando festas de amigos e namorando as mulatas, muitas delas prostitutas, com tom brincalhão podem freqüentemente tornar-se obscenos. “Daí, o ‘populismo’ chulo que irrompe às vezes e, longe de significar uma atitude aristocrática, nada mais é que válvula de escape para velhas obsessões sexuais ou arma para ferir os poderosos invejados” (Alfredo Bosi)

Texto:

Décimas
Quita, como vos achais
com esta troca tão rica?
eu vos troco por Anica,
vós por Nico me deixais:
vós de mim não vos queixais,
eu, Quita, de vós me queixo,
e pondo a cousa em seu eixo,
a mim com razão me tem,
pois me deixais por ninguém,
e eu por Arnica vos deixo.
Vós por um Dom Patarata
trocais um Doutor em Leis,
e eu troco, como sabeis,
uma por outra Mulata:
vós fostes comigo ingrata
com a grosseira ingratidão,
eu não fui ingrato não,
e quem troca odre por odre,
um deles há de ser podre,
e eu sou na troca odre são.
Eu com Anica querida
me remexo como posso,
vós co Patarata vosso
estarei bem remexida:
nesta desigual partida
leve o diabo o enganado,
porque eu acho no trocado,
que me vim a melhorar
mas na Moça por soldar,
que vós no Moço soldado
Se bem vos não vai na troca
pela antiga benquerença,
que farei logo a destroca:
porém se Amor vos provoca
a dar-me outros novos zelos,
hemos de lançar os pêlos
ao ar por seguridade,
e eu sei, que a vossa amizade
há de custar-me os cabelos.

Vocabulário
Patarata: ostentação ridícula, patacoada, mentira jactanciosa, pedante;
soldar: pagar (Anica é uma prostituta)
avença: (homem de boa avença) - fácil de contentar
hemos: havemos
lançar os pêlos ao ar: desnudar-se.

Soneto bem conhecido de Gregório de Matos:

A cada canto um grande conselheiro
Que nos quer governar cabana e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um freqüentado olheiro,
Que a vida do vizinho, e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha
Para a levar à Praça, e ao Terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos pelos pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.
Estupendas usuras nos mercados,
Todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia

[Resenha] Espíritos do Tâmisa - Série Enigmas de Londres - Ben Aaronovitch



Livro: Espíritos do Tâmisa

Série: Enigmas de Londres
Autor: Ben Aaronovitch
Editora: Fantasy/Casa da Palavra
Páginas: 368
Resenha por: Julio Heber
Compre: Amazon
Sinopse: Peter Grant tinha tudo para ser apenas mais um jovem guarda da Polícia Metropolitana de Londres. Após um encontro inesperado com um fantasma, contudo, ele é recrutado para uma unidade secreta que lida com a magia e o sobrenatural e torna-se o primeiro aprendiz em 50 anos do inspetor Nightingale, o último mago da Inglaterra. Peter Grant então precisa imediatamente lidar com dois casos inter-relacionados. No primeiro, ele deve descobrir quem é o espírito vingativo que anda transformando pessoas comuns em assassinos sanguinários. No segundo, aprender a investigar magia, conviver com grupos de vampiros, lidar com trolls e revirar covas pela cidade. Além, é claro, de negociar uma trégua entre deuses enfurecidos do rio Tâmisa caminhando por aí. Com uma linguagem ágil e bem-humorada, Bem Aaronovitch narra a história de um detetive que achava o mundo normal, antes de conhecer o poder intenso e surreal da magia por detrás do submundo de Londres. Aclamado por público e crítica em sua estreia como romancista, o autor foi indicado ao Galaxy National Books Awards como “Autor Estreante do Ano”, além de escrever roteiros para a série de televisão Doctor Who.
Na maioria das vezes que vou comprar um livro, vejo resenhas e comentários antes de adquiri-lo, mas com "Espíritos do Tâmisa" foi diferente, fui pela capa que, logo de cara, vinha estampada com a seguinte frase: “O que aconteceria se Harry Potter crescesse e se unisse ao CSI? ” Bom, eu pensei, ou vai dar super certo ou será catastrófico, no fim das contas, acabei comprando. 

A história é mostrada pelo ponto de vista do jovem Peter Grant, que estava concluindo seu último estágio para se formar policial na cidade de Londres, tudo começa quando ele estava sozinho protegendo uma cena de crime em Covent Garden, enquanto sua amiga e policial Lesley May pegava um café, quando repentinamente aparece um homem afirmando ser testemunha do assassinato que tinha acontecido ali naquela noite, o problema é que essa testemunha é um fantasma, nosso protagonista nem ao menos se assusta, não muda a cara. A meu ver, a leitura começou a ficar ruim nesse exato momento, porque eu, você e o resto da humanidade teria morrido de medo e dado no pé, mas não o nosso herói! Ainda aparece mais uma série de monstros que não deveria existir no mundo real e o Peter não esboça nenhuma emoção, acho que isso acabou ficando forçado, mas tudo bem! A partir do encontro com o fantasma, o protagonista é feito aprendiz de mago e apresentado à uma divisão obscura da polícia de Londres - responsável por manter a ordem com os seres sobrenaturais e investigar crimes de cunho mágico.

Os pontos fortes da história foram: A mistura de ciência com magia - que foi uma ideia muito boa, mas deveria ter sido trabalhada mais a fundo, as tiradas de humor (britânico) do personagem, e a parte do aprendizado mágico. No geral, achei a ideia boa, mas a personalidade artificial demais do personagem principal diminuiu a nota da obra. É uma leitura leve e cumpre o papel de entreter, mas definitivamente não se compara a Harry Potter.


Nota: 3/5